
“Eu adorava o voleibol e não concebia faltar a um treino”
Rui Águas dispensa apresentações. Como jogador do Portimonense, Benfica, Porto e da Seleção Nacional, a sua carreira foi recheada de sucessos.
Mas, antes de ser futebolista, a sua paixão era o voleibol, onde também chegou à seleção de juvenis. O CVO conversou com ele e foi descobrir este lado diferente de um grande atleta.
CVO: Rui, toda a gente sabe que foste um grande jogador de futebol. Mas poucos sabem que também jogaste voleibol. Como é que isso aconteceu?
Rui Águas: Estudava na escola Pedro de Santarém em Benfica e tive como professor de Educação Física um senhor chamado António Martins, já falecido, mas que fez história como treinador em Portugal. Comecei aos 10 anos de idade.
CVO: Chegaste a jogar a um nível competitivo alto ou foi só uma brincadeira?
Rui Águas: Era distribuidor e nunca fui muito alto, mas era tecnicamente bom. As minhas equipas eram normalmente as mais fortes do sul e éramos sempre campeões regionais, mas nunca fomos campeões nacionais. Lembro-me que pertenci a uma seleção de esperanças com idade de juvenil. Só havia mais um atleta tão novo como eu.
CVO: Os rapazes normalmente em pequeninos só querem jogar futebol. Só aos 10 ou 11 anos é que alguns começam a descobrir o voleibol. A ti aconteceu-te o contrário. O que é que te empurrou para o futebol?
Rui Águas: A minha opção pelo voleibol surgiu da influência do professor que então tive na escola. Competi oficialmente durante 6 anos (da escola passei para o CDUL).
No último ano de juvenil acumulei o futebol e nessa época fui convidado para os juniores do Sporting.
CVO: Achas que tinhas mais jeito para o voleibol ou para o futebol? Passaste ao lado de uma grande carreira voleibolística?
Rui Águas: O voleibol evoluiu muito. A minha estatura seria uma limitação (embora exista o Miguel Maia). Eu adorava o voleibol e não concebia faltar a um treino (eram 3/semana). O meu professor teve pena que eu deixasse, porque achava que eu teria futuro, mas a opção foi determinada pela necessidade de começar a ganhar dinheiro. Aí não tive dúvidas…
CVO: O que é que o voleibol te ensinou? Houve alguma coisa que foi útil para o futebol ou para a tua vida futura?
Rui Águas: Foi útil sem dúvida na minha capacidade de impulsão e leitura no jogo aéreo, características que viriam a ser decisivas na minha carreira.
No voleibol vivi intensamente o espírito de grupo, a amizade e o companheirismo, que são factores mais presentes nos escalões jovens e no desporto amador.
CVO: É óbvio que o futebol é muito mais popular, e é difícil comparar, mas vês algumas vantagens no voleibol em relação ao futebol?
Rui Águas: O desporto amador é normalmente mais puro na sua essência. O voleibol particularmente, em termos de rendimento, depende mais da estatura, mas é tacticamente muito intenso e rápido.
CVO: Rui, tu também estás ligado à formação e até tens uma escola de futebol. Do ponto de vista da formação humana de uma criança, a ideia que temos é que as coisas são talvez excessivamente competitivas no futebol, em relação a desportos mais amadores como o voleibol. Concordas?
Rui Águas: Concordo. A fama e o dinheiro são objectivos de qualquer mortal, mas também se tornam obsessivos, quer para atletas, quer para os seus responsáveis. Este envolvimento é muitas vezes negativo e pouco formativo para os jovens atletas, pela pressão existente e pelas frustrações inerentes.
CVO: Bem sei que passaram muitos anos, mas ainda manténs alguma ligação ao voleibol? Ainda tens algum “bichinho”, como se costuma dizer?
Rui Águas: Gosto de ver na televisão e costumo ir ver a minha filha, que joga nas seniores do Cascais. Joguei pela Portugal Telecom no INATEL há alguns anos. Também joguei torneios de praia, tendo ganho alguns na praia da luz, quer em duplas, quer em quadras.
CVO: Para terminar, há algum conselho que queiras deixar aos nossos jovens que estão a começar a sua formação de atletas?
Rui Águas: Que sejam persistentes, respeitadores e que mantenham o mesmo espírito desportivo também na derrota. E faltar aos treinos é proibido!